Março de 2026 foi agitado para a comunidade de Pauper no Brasil. Em menos de duas semanas, o formato recebeu dois spikes de preços repentinos — e incompatíveis com o mercado global — referentes a staples com baixa tiragem e pouco ou nenhum reprint disponível nos marketplaces nacionais.Mental Note dobrou de preço. Foi de R$ 50 para R$ 110. Mais recentemente, Prismatic Strands, uma staple do White Weenie — arquétipo que subiu de popularidade com o lançamento de Leonardo, Big Brother — foi de R$ 20 para R$ 40. Ao fim do mês, estacionou em R$ 75, com o preço médio beirando os R$ 100. No momento em que escrevo este artigo, Perilous Research está com os estoques zerados nos marketplaces, Holy Light foi de R$ 6 para R$ 100 e Avenging Hunter foi de R$ 12 para R$ 30.O mercado brasileiro possui muitas divergências com o cenário global ao ponto de fazer comparações do preço em dólar beirar a ingenuidade (Mental Note custa US$ 10 e Prismatic Strands US$ 6). Algumas cartas serão mais caras no país e outras mais baratas porque a lógica de oferta e demanda reflete, além do que o mercado internacional dita, a procura nacionalizada — Pauper é extremamente popular no Brasil. De longe, é o formato competitivo mais jogado no país.Qualquer indivíduo com dois neurônios pode dizer que não passa da lei de oferta e demanda em curso no ambiente de livre mercado. Não estará errado: Pauper é popular, mais pessoas jogam, há um torneio com R$ 30.000 de premiação anunciado na LigaFest para o meio do ano. Todos são elementos que podem afetar a percepção dos jogadores e do mercado referente aos preços praticados no formato.Meu questionamento interno nessas duas semanas não é "por que ficou mais caro?". Os motivos são evidentes, mas pouco relevantes para a preocupação que esse momento provoca. Pauper é formato de base, porta de entrada. Pessoas entram no Magic através dele, ficam no Magic por causa dele. É porta de entrada porque é barato e funciona porque o ambiente nacional e o perfil do jogador de países com economias desvalorizadas envolvem não gastar tanto dinheiro com hobbies como card games sem comprometer a renda mensal.Portanto, minha dúvida é: o que acontece com um formato — e com Magic em um país — quando o papel fundamental dele ser acessível deixa de existir? E como podemos evitar esta tragédia?Um Formato Popular Porque é BaratoRepito: Pauper é extremamente popular no Brasil. É popular porque é barato.O formato ganhou tração no Brasil a partir de 2014, período que coincide com o acréscimo de preços do Standard ocasionado pelos reprints das Fetch Lands em Khans of Tarkir, somado ao momento em que o país começou a enfrentar um longo e permanente período de instabilidades econômicas e políticas. Pauper se tornou refúgio, o jeito de jogar Magic sem torrar rios de dinheiro diante da desvalorização crescente do real em relação ao dólar, ao mesmo tempo em que era um ótimo formato de entrada para quem estava conhecendo Magic: The Gathering.Trata-se de um formato que cabe no bolso do jogador brasileiro, independentemente dos seus outros custos. Em 2016, um Romeu impetuoso de 20 e poucos anos que morava sozinho pela primeira vez e trocava de empregos com mais frequência do que deveria ainda conseguiu, apesar dos baixos salários, separar um dinheiro para montar um Mono Black Control, vencer um classificatório e participar do Nacional Pauper daquele ano — e o fez sem precisar fazer concessões em suas demais contas.Até certo ponto, a popularidade do formato no país é um fenômeno e marco da nossa resiliência em competir apesar dos obstáculos. O Pauper brasileiro cresceu como produto de uma comunidade que construiu seu próprio ecossistema competitivo sem suporte institucional durante anos por meio de torneios independentes, incluindo um Campeonato Nacional com classificatórias. Agora, ele é o principal ambiente competitivo do país em números brutos e cresce em atendência sempre que os outros ambientes ficam menos acessíveis.No fim do ano passado, as finais do LigaFest — atual maior evento de TCGs da América Latina — contaram com 847 participantes. Destes, 243 eram competidores de Pauper; mais do que a quantidade de jogadores no Standard, Pioneer, Modern e Legacy juntos. Não surpreende que a primeira edição de 2026, marcada para julho, tenha o Pauper como formato com maior acúmulo de premiação do circuito inteiro, com R$ 30.000 — mais que o dobro do Modern.O Jogador de R$ 500Os números da LigaFest em termos de formatos também apresentam um padrão: exceto pelo Modern, que possui uma cultura própria de jogadores dedicados àquele formato há mais de uma década, os torneios mais populares do evento foram os de formatos budget — Commander 500, onde o deck não pode custar mais do que R$ 500, teve mais participantes que Standard e esteve muito pouco abaixo do Modern —, ou de jogos mais acessíveis como Pokémon, cuja quantidade total de participantes foi de 113 jogadores; mais que o Modern com 91, menos da metade do Pauper.Desde que fizemos este levantamento, defendo a existência de um perfil de jogador brasileiro. Ele gosta de competir, mas requer boas portas de entrada para participar de torneios. Estão dispostos a investir tempo e dinheiro no jogo, mas nem tanto ao ponto de normalizar gastar um salário mínimo ou mais em pedaços de papelão — como Standard, Modern e Legacy exigem hoje. São adultos de classe média, com contas a pagar e outras prioridades, e a maioria enxerga card games como diversão antes de investimento, por mais que adorem a sensação de lucrar com o jogo.Em partes, este também é o perfil do novo jogador, aquele que vai conhecer Magic através dos seus amigos, se interessar no jogo e eventualmente comprar, montar e/ou melhorar decks. Preço para entrar no hobby é um grande diferencial para este indivíduo; se você apresentar o Standard, com o baralho mais barato beirando os R$ 1.000, ele vai se sentir intimidado. Afinal, beira o absurdo para o senso comum gastar quatro dígitos de moeda em pedaços de papelão colorido.Ambos são indivíduos que vão parar no Pauper ou vão montar uma lista de Commander 500. Sob este raciocínio e os números da LigaFest, somado à popularidade desses formatos budget no Brasil, concluímos que o custo médio ideal de um jogador de Magic hoje gira em torno de R$ 500. Ele pode fazer concessões e subir um pouco mais esse orçamento, mas quanto mais alto e distante deste preço, mais intimidado ele se sente de gastar dinheiro em cartas, porque mais difícil se torna justificar esse custo.Em janeiro deste ano, Raphael de Souza Pereira publicou um texto em que ele apresenta um perfil psicográfico deste jogador, o qual batizou de "Silva". É o jogador que ama o jogo, quer competir, quer melhorar, e não pode se dar ao luxo de gastar uma quantia que comprometa suas contas do mês em papelão colorido.O Silva representa 81% da população brasileira nas classes C, D e E. Ele está entre os 243 competidores de Pauper do LigaFest. Está nos torneios de loja toda semana. É quem faz o circuito ter participantes suficientes para que R$ 30 mil em premiação faça sentido como investimento de um organizador. Ele joga Pauper porque é o único formato competitivo que cabe na sua realidade financeira — e quando a staple ou o deck deixa de caber no bolso dele, ele para de jogar.Para este jogador, mesmo que ele tenha participado da comunidade de Magic e jogado até Modern nos últimos dez anos, o problema de acessibilidade agora é mais grave do que na década passada por conta do contexto em que ele vive. No fim de 2024, mais de 75% dos participantes de uma pesquisa global conduzida pela AlixPartners afirmaram esperar reduzir ou manter os gastos no ano seguinte, com inflação em itens essenciais comprimindo o orçamento para entretenimento.Card games são muito vulneráveis a este tipo de retração, e ainda mais para países como o Brasil. Montar um deck competitivo exige um desembolso muito grande quando comparado a outros lazeres, e fica difícil de justificar se as suas margens são muito apertadas. Se este indivíduo está mais velho hoje — e a atual faixa etária média do jogador de Magic é de 35 anos —, suas responsabilidades com aluguel, contas e outros custos básicos de vida também podem comprimir ainda mais a renda quando comparado a uma década atrás.Quando quatro cópias de Mental Note batem R$ 400, o deck que custava R$ 500 subiu para R$ 700, talvez R$ 800. Se a tendência continuar, logo aquela lista pode chegar a R$ 1.000 em um formato cuja proposta ao público é não chegar a este número. Pauper pode até continuar sendo mais barato que Standard e Modern nessa realidade, mas a comparação não é entre formatos, e sim entre o custo real de um deck e o teto psicológico de um jogador cujo sentimento de poder de compra reduzido já o assombra antes do debate sobre Mental Note sequer começar.Sem ele, os 243 jogadores do LigaFest nunca chegarão aos 300 ou mais. Talvez virem 150. Depois, 100. Sem acessibilidade, a estrutura que a comunidade levou anos construindo e que serve de base e porta de entrada para o Magic no Brasil começa a se deteriorar por dentro porque decidiram se importar mais com o lucro imediato do que com a saúde de longo prazo do jogo que sustenta o fluxo de caixa de centenas de lojas no país.Sem um Pauper acessível, o Silva, novo ou velho, não se interessa em jogar. Sem o Silva, não existe Magic no Brasil.Mental Note é só o InícioMental Note e Prismatic Strands eram ambas cartas com baixas quantidades disponíveis no Brasil e janelas de oportunidade notáveis. A ascensão do Dimir Terror como arquétipo complementar ao Mono Blue com quatro cópias da cantrip azul, e a recém-popularização do White Weenie com Leonardo, Big Brother após TMNT. Dá para justificar afirmando que é o mercado se ajustando a uma nova realidade, mas ela é passível de especulação sobre escassez e manipulação artificial.O padrão é o mesmo: um card teve poucos reprints desde seu primeiro lançamento, vira uma staple de Pauper por alguma razão, mais pessoas procuram e consequentemente o preço da carta sobe. Qualquer loja — ou jogador — que identifique um aumento de demanda e baixa disponibilidade em marketplace de uma região pode provocar um buyout e inflar os preços quando apenas ele e mais uma dúzia de sobreviventes ou pessoas que executaram o mesmo plano tiverem os cards disponíveis. Uma vez com os preços altos, eles nunca mais voltarão ao que eram sem uma intervenção direta.Pauper é um terreno fértil nesta prática porque existem muitos cards jogáveis ou staples que tiveram poucos ou nenhum reprint, somado à baixa probabilidade da Wizards of the Coast — que descontinuou os Masters Sets por tempo indeterminado — de eventualmente relançá-las.Dust to Dust teve apenas duas print runs em toda a sua existência e está presente no sideboard de vários arquétipos relevantes do formato. Krark-Clan Shaman só saiu em Mirrodin, tal qual Standard Bearer e Sunscape Familiar, se não contarmos a The List, cuja frequência é baixa demais para ser relevante.Se o padrão de buyouts e spikes continuar nos próximos meses, podemos encerrar 2026 com um Pauper significativamente mais caro do que no início do ano.A Única Solução é o ReprintPouco adianta apontar o dedo e dizer que a loja é malvada ou que o jogador que compra é, segundo diversos comentários nos vídeos do nosso canal no YouTube a respeito de Utrom Monitor, "otário". A briga não vai resolver os preços inflados e o mercado não vai descer o valor deles nem mesmo se cem jogadores de Pauper se unissem para não comprar staples com preços altos. Haverá alguém em outra região e um pouco mais desesperado ou assombrado pelo FOMO que vai comprar.A única solução, portanto, passa pela mesma política que a Wizards of the Coast parece ter abdicado este ano: os reprints. Se não existem mais Masters Sets (e a ideia de um "Pauper Masters", que muitos jogadores brasileiros têm discutido, é péssima sob a ótica de um produto comercial), eles precisam aparecer com mais frequência em outros segmentos de fácil acesso — precons de Commander, Horizons Sets, Mystical Archives e slots temáticos, entre outros. Afinal, não adianta ter um reprint no Secret Lair de Dandân quando este é um produto de tiragem muito limitada e cobiçado por scalpers desde o lançamento.É quase previsível que a Wizards tenha "matado" os Masters Sets alguns anos após aquele famoso relato do Bank of America acusando a empresa de prejudicar o valor de longo prazo de Magic: The Gathering por lançar cartas demais, mas o argumento de desvalorização é irrisório para o Pauper. Não estamos falando da Lista Reservada, mas de cards que, em sua maioria, foram criados apenas para dar suporte ao ambiente de Limitado e estão na escala mais baixa de raridade do sistema do jogo.Esta solução, entretanto, tem um problema: ela depende da Wizards olhar para ambientes às margens dos interesses da empresa. Ela demonstrou, desde que cortou a localização em português após Modern Horizons 3, que o mercado brasileiro não está entre suas prioridades. Os spikes recentes são um mal inteiramente brasileiro. Trata-se de um país onde Magic ficou incessantemente mais caro e difícil de acompanhar a cada ano, com o ponto de ruptura sendo o período da pandemia. O fim da localização, do suporte regional e de outros fatores que faziam a comunidade brasileira se sentir parte do jogo se deu por conta dessas crises.Não estou propondo que a Wizards trate o Brasil com algum privilégio, mas afirmo que sem formatos baratos e com ampla disponibilidade de cartas, a longevidade de Magic: The Gathering em países economicamente desfavorecidos fica ameaçada. Por isso, é necessário que a empresa olhe para o Pauper como um ambiente com necessidade de suportes pontuais e uma política ativa de reprints por ser uma porta de entrada eficiente para o crescimento do jogo nesses países.ConcluindoA Wizards tem parcela de responsabilidade, mas o mercado também leva a culpa. Buyout e spikes de preço estão longe de ser novidade, e a opção de lucrar sob uma possibilidade de escassez existe em qualquer mercado. Mas ganância demais vem com um custo de longo prazo.O Pauper no Brasil cresceu antes de a Wizards sequer reconhecer o formato como oficial fora do Magic Online, pelas mãos de organizadores independentes em comunidades regionais que acreditaram no formato até o ponto em que ele se tornou o ambiente competitivo mais popular do país. Se o mercado de Pauper movimenta tantas vendas no país e chega ao ponto de dar uma premiação de cinco dígitos no maior evento da América Latina, é porque muita gente acreditou nele na década passada e muitos ainda acreditam nele como o melhor formato para jogar no país.Se o formato perde seu principal atrativo — acessibilidade —, não apenas o Pauper, mas todo o ecossistema de Magic no Brasil arrisca estagnar para sempre. Cada carta de Pauper que sai do alcance do jogador médio é um fator que o desencoraja a voltar no torneio semanal da loja ou a montar um deck novo. É mais um ingresso não vendido, mais uma cadeira vazia no torneio, e menos um participante que todos precisam para ver o jogo crescer.Reprints poderiam resolver esse problema, mas na ausência deles, é necessário olhar para dentro. Até onde uma margem de lucro e manipulação de escassez de mercado não estão prejudicando o modelo de negócio de dezenas ou centenas de lojas que podem ter menos jogadores nas suas mesas porque o Pauper ficou caro? O quanto a sensação daquele quentinho no coração de quando você lucrou porque tinha um set de Mental Note foil, ou se sentiu o Lobo de Wall Street das Estampas Ilustradas porque comprou elas antes do spike, justifica a ausência de uma ou mais pessoas no seu torneio semanal porque a barreira de entrada aumentou?Beira o idealismo ingênuo imaginar que podemos reavaliar um problema estrutural da cultura de card games e olhar para a saúde do futuro do jogo no país antes do lucro, mas também existe preocupação na falta de fluxos de novos jogadores de Magic: The Gathering nas lojas locais e como diversos ambientes de jogo encolheram nos últimos anos — e a culpa passa pelos preços.A comunidade que construiu um dos maiores cenários competitivos de Pauper do mundo foi composta por milhares de Silvas que queriam jogar Magic sem ter que gastar muito. Construíram uma cultura em cima disso e estabeleceram um mercado forte, consistente, mas ainda muito acessível, que possibilita a qualquer um entrar, participar e competir.Agora, este mesmo mercado e comunidade estão olhando para os novos jogadores e àqueles que não estão dispostos a comprometer sua renda comprando papelão colorido e repetindo aqueles mesmos dizeres em prol do lucro: "Talvez este produto não seja para você".
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