Todo ciclo de banimentos de Magic repete a mesma história no Pauper: um número considerável de usuários em mídias sociais ou comentários de YouTube pedindo que alguma carta do Affinity deixe o formato. O alvo mais comum são as Bridges — o ciclo de terrenos-artefato indestrutíveis lançados em Modern Horizons II, retirando do arquétipo as vulnerabilidades na base de mana, seu principal calcanhar de Aquiles.
Há poucas semanas, publiquei um artigo (e um vídeo) onde explico como Sneaky Snacker está gradualmente se tornando mais presente no Pauper ao ser o payoff perfeito para qualquer mecanismo de looting e descarte, e com cada vez mais arquétipos adotando cards como Pursue the Past, mais comum fica sua presença ao ponto de arriscar homogeneizar mecanismos, não muito diferente de Deadly Dispute.
Uma parcela considerável dos comentários continha reclamações sobre, é claro, o Affinity. Um deles chegava a afirmar que é criminoso falar de banir outro card que não seja Refurbished Familiar. Criminoso.

Affinity não precisa de banimentos hoje. Ele tem uma posição clara no formato como principal representante dos Midranges ao lado de Jund Wildfire e Black Gardens e calha de ser o arquétipo mais famoso e com mais adeptos entre eles.
O desgosto em relação ao arquétipo se deve ao seu histórico e resiliência. Desde Modern Horizons II, o deck se transformou em um dos maiores problemas que o Pauper já enfrentou, levou sete banimentos — Sojourner's Companion, Atog, Disciple of the Vault, Prophetic Prism (hoje válido), Deadly Dispute, All That Glitters e Cranial Ram — e permanece como uma das melhores escolhas do Metagame competitivo. A raiva existe porque o Affinity se recusa a morrer, as intervenções que poderiam matá-lo nunca aconteceram, e qualquer adição nova se transforma em motivo de desgosto por uma parcela da comunidade.
Ao mesmo tempo, essa mesma comunidade continua a enfrentar o Affinity como se ainda estivéssemos em 2016. O principal alvo continua sendo atacar a base de mana, e seus jogadores ficaram tão cientes dessa proposta que o Jund Wildfire é nada menos do que um Affinity que optou por cortar a dependência de artefatos em prol de qualidade individual.
A culpa do ódio ao Affinity pela sua presença constante nos últimos cinco anos é, portanto, de quem? Da mecânica inerentemente quebrada ao ponto de transformar qualquer adição nova em potencial risco? Do Pauper Format Panel por não tomar as decisões que a comunidade acredita que deveriam e banir as Bridges? Ou da comunidade por ainda tratar o arquétipo da mesma maneira que tratou durante anos e, quando essa solução não funciona mais ou demanda mais trabalho, repetem o mesmo mantra de "morte ao Affinity!" ?
O Affinity como o conhecíamos

Affinity foi motivo de controvérsia no Pauper desde o Dia 1 do formato, em 2008. Cranial Plating foi o primeiro card banido nele, sem sequer ter chances de jogo. Não era possível ter, em um ambiente só de comuns com nível de poder baixo, a combinação de Plating com os Terrenos-Artefato de Mirrodin sem quebrar o Metagame. Com os anos, ficou evidente que outras mecânicas e combos (Storm e Infect) poderiam ser tão rápidos quanto, mas estes também tiveram peças-chave banidas, e o Pauper estabelece um ecossistema próprio.
Por muitos anos, essa foi a roupagem do Affinity. Um arquétipo agressivo, com uma base de mana inconsistente que dependia de cards como Prophetic Prism e Springleaf Drum para corrigir cores. O potencial de turnos explosivos era compensado com dificuldades de acesso a cores, que demandavam setups e, consequentemente, turnos em que o deck passava fazendo muito pouco. Além disso, o deck também tinha problemas com recursos, tendo apenas Thoughtcast como fonte de vantagem em cartas, tornando até a possibilidade de setups com Atog e Temur Battle Rage menos consistentes.
Seu maior problema, porém, estava na base de mana.

Gorilla Shaman, outrora conhecido como "Mox Monkey" porque destruía as Moxes no Vintage por apenas uma mana, tinha a mesma função com os terrenos-artefato do Affinity. A possibilidade de uma resposta tão pontual e destrutiva colocava o deck em uma posição no Pauper similar à de estratégias como Dredge tinham no Modern: ele crescia quando jogadores não o respeitavam e tiravam o hate direcionado do Sideboard, e voltava a encolher conforme a quantidade de respostas — Gorilla Shaman no Pauper, Rest in Peace no Modern — aumentava.
Havia, portanto, um equilíbrio entre o quão explosivo o Affinity podia ser e como os demais arquétipos poderiam se adaptar a ele, mesmo se ele tentasse se adequar, trocando velocidade por mais consistência.
Versões Jeskai, com Kor Skyfisher e, em alguns casos, Auriok Sunchaser, e as versões Grixis, baseadas em sacrificar artefatos e desencadear Disciple of the Vault, nasceram desta premissa conforme novas ferramentas saíram que interagiam com artefatos. Apesar de algumas versões optarem por jogar com alguns terrenos básicos, ou até Bounce Lands, a possibilidade de Gorilla Shaman lhe desprover do acesso à mana permanecia.
Modern Horizons II

Modern Horizons II mudou o Affinity para sempre. A inserção das Bridges como terrenos-artefatos indestrutíveis que também corrigiam a mana transformou Gorilla Shaman em uma resposta muito menos consistente, ao mesmo tempo em que resolveram os problemas de consistência.

O set também incluiu Sojourner's Companion, cópias extras de Myr Enforcer que também corrigiam a mana, e Adventures in the Forgotten Realms, lançado no mês seguinte à MH2, introduziu Deadly Dispute, que se transformaria no principal mecanismo de vantagem em cartas do Pauper, mas começou no Affinity como cópias extras de Thoughtcast.
Affinity se tornou uma das estratégias dominantes no pior Metagame competitivo da história do Pauper, onde mais de 70% de representação dos Challenges era comumente composta por uma mistura de Storm, Affinity e Blue Tempo. Qualquer um jogando com algo diferente estava muitos passos atrás.
O Grixis Affinity da era pré-banimentos foi o mais próximo que o Magic competitivo já teve de "outro Hogaak" desde o deck de Hogaak, Arisen Necropolis do Modern. Ele tinha tudo: um clock agressivo e gratuito com Myr Enforcer e Sojourner's Companion, abundância de fontes de vantagem em cartas com Thoughtcast e Deadly Dispute, uma base de mana bem equilibrada, alcance e remoção com Galvanic Blast, e potenciais combo-kills com Atog e Disciple of the Vault / Fling / Temur Battle Rage — acompanhá-lo com estratégias justas era impossível, e respondê-lo demandava muitos slots sem garantias de funcionar a tempo.

Dust to Dust, uma comum esquecida de The Dark, uma das primeiras expansões de Magic, se transformou em uma staple neste período por ser o único card que possibilitava, em uma troca de dois-para-um, resolver o problema das Bridges com o mesmo card que respondia a uma sequência de dois 4/4 na mesa por zero mana.
Na época, não era suficiente: a menos que fosse utilizado assertivamente no segundo ou terceiro turno, o Affinity criava mesa e recursos para não perder por falta de mana com facilidade. Além disso, decks com branco tinham sérios problemas em jogar contra Storm, a outra estratégia dominante da época.
Os Banimentos

Os banimentos eventualmente chegaram. Primeiro Sojourner's Companion, depois Atog e Prophetic Prism, depois Disciple of the Vault. Cada peça que destoava o Affinity como algo além de um Aggro/Midrange foi deixando o formato, mas ele ganhou novas ferramentas a cada set também, permitindo-o se transformar e adaptar as listas de acordo com o Metagame.
Blood Fountain, Kenku Artificer, Reckoner's Bargain e Cast Down foram apenas algumas das adições dos últimos anos, e o arquétipo continua recebendo ferramentas que permanecem no formato porque se encaixam na linha de Midrange que o Painel propõe como espaço do Affinity.
Quando algum card destoa desta linha, ou oferece benefícios demais que não condizem com o que o Metagame consegue comportar, um banimento ocorre.
All That Glitters foi um destes casos. O Pauper definitivamente não precisava de um Cranial Plating em forma de Aura e o arquétipo se adaptou ao ponto de transicionar das variantes Grixis para Azorius, com eficácia de mana e jogadas de Tempo no cerne da estratégia.
Esta foi a versão mais dominante de Affinity desde que Atog deixou o formato. Afinal, ela oferecia quase o mesmo risco: um potencial hit-kill em um ou dois turnos sem muita janela para resposta. Também foi o momento em que sets de Dust to Dust e Revoke Existence nos Sideboards virou uma tendência e estabeleceu outra onda de má-fama e problemas no deck desde MH2.
Eventualmente, o Boros Synthesizer adotou a mesma proposta, com mais resiliência a hates tradicionais e mais mecanismos de vantagem em cartas e atrito que permitiam os mesmos hit-kills do Affinity sem tomar uma derrota instantânea contra Dust to Dust. Essa versão foi a mais popular do Pauper até o banimento de All That Glitters.

Modern Horizons 3 trouxe outro elefante na sala que terminou com o mesmo destino do card em que foi inspirado: Cranial Ram foi banido antes da expansão sair para evitar os riscos de padrão de jogo apresentados com Glitters poucas semanas antes.
O set trouxe uma dúzia de staples ao formato, do agora banido Basking Broodscale a Writhing Chrysalis. Para o Affinity, Refurbished Familiar e Eviscerator's Insight foram a principal adição. O Metagame, novamente, se concentrou em alguns arquétipos específicos, com o Affinity entre eles, mas o formato estava, em maioria, girando em torno do combo de Broodscale.

Deadly Dispute, a intervenção mais recente, caiu junto de Basking Broodscale e Kuldotha Rebirth. O PFP pretendia reduzir a velocidade do formato com esses banimentos, mas Dispute também deixou o Pauper por estar presente demais pela combinação entre seu efeito de criar uma ficha de Tesouro e artefatos que garantem draws quando vão para o cemitério — interação que o tornava comparável com Ancestral Recall e requeria poucas concessões para funcionar, tornando-o o principal mecanismo de vantagem em cartas do formato.
Affinity é o Jund
Como em outros momentos, as adições de novos artefatos, ou cards que interagem com artefatos, permitiram ao Affinity continuar se transformando. Black Mage's Rod garantiu mais alcance de dano fora do combate, Cryogen Relic oferece cópias extras de Ichor Wellspring, a interação de Krark-Clan Shaman com Hunter's Blowgun e Toxin Analysis, dois cards relativamente antigos, ficaram mais populares e depois declinaram, e Utrom Monitor foi a ameaça mais recente a ser inclusa nas listas.
Hoje, o Affinity permanece entre os cinco decks mais jogados do Pauper, chegando a ser mais popular em ambientes regionalizados: no Super Pauper 30k da Next Level, ele foi o segundo arquétipo mais utilizado, atrás apenas do Mono Red Madness. A popularidade se deve ao nível de poder, onde ele é comparável aos demais principais competidores, mas também à lealdade — muitos jogadores pilotam Affinity há muito tempo e o deck, com toda a bagagem histórica dentro e fora do Pauper, é muito famoso para além da bolha do formato, mesmo quando não é mais visto como uma boa porta de entrada para o "estrangeiro" que chega a um torneio de paraquedas.
Sua posição no Metagame atual é a do Midrange. O Grixis Affinity é um bom deck porque ele consegue responder a tudo, tem boas fontes de vantagem em cartas, alcance, e ameaças eficazes entre aquelas que oferecem efeitos de dois-pra-um e as que garantem um clock eficaz. Se parece familiar, é porque essa é a mesma descrição que o Jund do Modern pré-MH tinha.
A diferença é que nossa concepção de Midrange ainda está atrelada a um estereótipo, o qual o Pauper correspondia com ferramentas de valor mais lentas como o Monarch e jogos de atrito mais demorados. Só que Midrange tem vários espectros porque ele está no meio-termo entre Aggro e Control, e no ecossistema atual, o Affinity está no pêndulo mais agressivo, Black Gardens no pêndulo de controle, e Jund Wildfire está no meio-termo.
O Jund Wildfire, inclusive, nasceu do lançamento de Writhing Chrysalis como o mais próximo que o Pauper já teve de um Tarmogoyf, somada ao vício da base de jogadores de tentar resolver tudo o que o Affinity faz com um set completo de Dust to Dust; Wildfire pode sofrer contra ela com um keep errado, mas joga muito melhor em volta do que qualquer variante de Affinity.
Podem existir problemas com o Grixis Affinity (ou qualquer variante) sempre que um reforço novo sai, assim como existiu com decks de Delver of Secrets no Legacy sempre que um card destoa demais, ou como aconteceu e ainda pode acontecer com os arquétipos azuis ou vermelhos no Pauper, mas isso não significa que a estratégia precisa sempre tomar um banimento só porque ele permanece um competidor forte — se ele retém esse espaço após sete intervenções, só prova que ele realmente é um deck muito bom e confiável, e que o Pauper Format Panel fez um bom trabalho em "podar" uma estratégia sem precisar ir direto na fonte que o habilita.

Refurbished Familiar, principal alvo das reclamações junto ao Krark-Clan Shaman — o qual já defendi o banimento em outro Metagame —, vem da sensação amarga quando o oponente sequencia vários dele. Ninguém gosta de não conseguir jogar e existem linhas dentro e fora do Affinity que tornam Familiar o tipo de card que esgota recursos, somado ao ódio proveniente da resiliência do próprio deck ao Metagame.
Um card ser desagradável de jogar não significa ser opressivo e passível de banimentos toda vez. Ninguém gosta de perder de graça para Guttersnipe com Lava Dart / Fireblast, tomar uma Spellstutter Sprite no segundo turno e vê-la devolvida para a mão com um Moon-Circuit Hacker, ou ver dois Tolarian Terror na mesa cedo demais. Padrões desagradáveis podem existir porque Magic é um jogo com variância, e a menos que esse padrão se apresente ao ponto de reduzir diversidade e aproveitamento com consistência, eles são parte do jogo.
Neste momento, querer banir Refurbished Familiar agora é como afirmar que Counterspell precisa deixar o Pauper porque tirar Gush, Daze, Treasure Cruise, Mystic Sanctuary, Fall from Favor e Cloud of Faeries não foi suficiente para tirar os decks azuis do Tier 1. Além disso, o card possui, neste momento, freios e contrapesos provocados pelos diversos arquétipos que se alimentam do cemitério de alguma maneira.

A comunidade continua a tratar o Affinity como o tratava antes de Modern Horizons II, com a percepção de que a saída para ele é atacar a base de mana. Boa parcela se apoia demais no argumento de Dust to Dust para justificar o quão injusto é precisar separar quatro slots no White Weenie para essa partida, sem questionar o que está ganhando do Affinity neste momento e, principalmente, por que está ganhando.
Apesar da ampla quantidade de balas de prata, o Pauper é um formato mais complexo do que apenas inserir o hate específico contra um arquétipo dominante. A dinâmica da partida importa e a maneira como alguns abordam certos arquétipos pode ser indicativa mais clara do que realmente funciona ou deixa de funcionar.
Enquanto jogadores continuarem se apoiando cegamente em Dust to Dust e similares como "única resposta viável", o Affinity continuará se adaptando, e jogadores mais experientes com o arquétipo já sabem como desviar das balas de prata, ou como jogar em torno delas.
Como o Pauper, portanto, pretende abordar o Affinity fora pedir mais um banimento?











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