Este ano que se encerra é o quinto em que trabalho diretamente com conteúdos sobre card games e, em 2026, fará 20 anos que acompanho o nicho, sendo que desses, 18 foram jogando Magic: The Gathering, meu principal foco de cobertura neste site.
Em um dos meus primeiros artigos, mencionei como Magic estava mudando. Na época, o motivo tinha a ver com as mudanças e desafios que a pandemia trouxe ao jogo, com foco maior no Magic Arena, as ondas de Power Creep com cards como Omnath, Locus of Creation e seu excesso de eficácia quando comparado com cards da década passada, como Siege Rhino. Havia também outros assuntos abordados: banimentos como ferramenta regulatória (agora nós pedimos mais banimentos), a notória percepção de que Magic estava se tornando cada vez mais um produto a ser vendido (agora temos sete expansões em um ano e uma dúzia de Secret Lairs a cada lançamento), e que, apesar do sentimento geral da comunidade sobre algumas decisões, a palavra final era da Hasbro.
Cinco anos se passaram, e de todos os períodos em que estive acompanhando este jogo e trabalhando ativamente com ele, olhando em retrospectiva neste dezembro, 2025 foi o mais cansativo de cobrir Magic.
Aos dezesseis, quando tive meu primeiro ano com Magic, passei muito tempo aproveitando o jogo e estudando-o: baralhos que fizeram história, teorias sobre conceitos do jogo, jogadores famosos e muitas outras coisas que estavam disponíveis nos confins da internet e em fóruns antigos e novos — era uma paixão, um hiperfoco que me deu o privilégio de conhecer pessoas, experimentar diversos formatos e, por fim, criar conteúdo sobre Magic e ter a minha voz ouvida ou lida.
Agora Magic dá a sensação de ser apenas mais um jogo. Um que lança produtos com mais frequência do que deveria, anuncia coisas mais cedo do que deveria, e não permite aproveitar o produto mais recente lançado porque precisa direcionar o hype do consumo para outra coisa instantaneamente, dando pouca importância à beleza do jogo em si. Não existe mais aproveitamento, principalmente quando se cria conteúdo — o assunto será sempre o mais recente, independentemente de se ele acabou de sair, ou se será lançado apenas em junho de 2026.
Para ser mais claro, ocorreram dois eventos na última semana que ressaltam os pontos cansativos do card game este ano. O primeiro foi o Campeonato Mundial 31, e as controvérsias envolvendo o campeão Seth Manfield que, apesar de serem feias e agregarem muito pouco ao teor “profissional” que se espera de um evento deste porte, não foram a maior decepção.
Na verdade, há uma provocação que gostaria de fazer a respeito deste assunto: como podemos cobrar mais profissionalismo do torneio mais importante do ano de Magic, quando Magic não trata a si, aos jogadores e ao próprio Mundial com profissionalismo? Quando nós não cobramos de Magic e nos contentamos com o mínimo, quem somos para cobrar que o jogo se leve a sério?
Basta ver pela cobertura oficial do evento: falha, visualmente pouco atrativa, carecendo de qualquer coisa que tornasse deste evento, o ápice do Magic competitivo, um espetáculo digno do seu nome — ao invés disso, ele focou exclusivamente em oferecer mais do mesmo, repetindo tudo o que já faz para o Pro Tour, sem dar qualquer teor a ele que o tornasse um Mundial digno de ser assistido.
O segundo incômodo veio de como a Wizards cedeu espaço poucos dias depois do Mundial para as prévias excessivamente antecipadas de Marvel Super Heroes, expansão prevista para sair em junho de 2026, e como todo foco de mídia social da empresa negligenciou o evento durante a cobertura, mas não poupou esforços em garantir que os anúncios da Marvel fossem algo que todos deveriam esperar ansiosamente.
A soma desses dois eventos apresenta a síntese do que tem me feito perder a paixão pelo TCG. Sempre me importei com Magic enquanto jogo, e era empolgante acompanhar os Grand Prix ou até os SCG Opens para ver como os formatos se desenvolviam, quais decks estavam se destacando e aproveitar um bom torneio enquanto fazia outras atividades — era também o que me criava o anseio de jogar em loja e montar e estudar decks, não sempre pelo anseio de ser um competidor que sonhava em chegar ao Pro Tour um dia, mas pela própria beleza de um “Magic bem jogado”.
Agora, parece que este mesmo “Magic bem jogado” está sendo deixado para trás. Um argumento no caso Manfield é o de que este tipo de ação e outras misplays ocorridas não deveriam, idealmente, acontecer no ápice do Magic competitivo porque deixa a sensação de que o jogo é desleixado, mas o motivo pelo qual esse sentimento existe se deve à baixa importância que a Wizards of the Coast deu para o maior evento da temporada — e os jogadores, em partes, também deram pouca atenção ao evento.
No mundo ideal, o Campeonato Mundial 31 deveria ser o marco de tudo o que Magic: The Gathering conquistou durante o ano em que bateu, novamente, recorde de vendas com o lançamento de Final Fantasy, e o ápice da escala competitiva do jogo — o que deveria ocorrer é um grande espetáculo do card game com uma cobertura digna do nome do torneio e dos competidores que trabalharam duro durante o ano para chegar a este momento.
O que recebemos, no entanto, foi um evento com uma cobertura incapaz de fazer algo além do que Magic já fez durante uma década inteira. Para fins práticos, a cobertura do Mundial este ano foi a mesma de qualquer Pro Tour, sem nada que o destacasse em comparação além de um troféu de Black Lotus que, aparentemente, não foi projetado para ser levantado na coroação de campeão.

Por mais do mesmo, quero dizer “uma transmissão feia”. O streaming oficial do Pro Tour (e do Mundial) não é visualmente atrativo de assistir, pois os planos de câmera não favorecem, a iluminação e decoração não têm charme e, principalmente, não faz Magic parecer um jogo divertido de acompanhar — não importa o quanto a equipe de cobertura do evento tente fazer uma partida soar empolgante, ainda se trata de jogadores com cara emburrada sentados a uma mesa enquanto cartas se espalham pelos cantos enquanto a equipe tem problemas em manter o tracking de todas as informações para o espectador.
A própria interface da cobertura não colabora. Por não ter informações visuais suficientes e se importar demais com elementos como o “cards in hand”, a transmissão faz Magic parecer ainda menos convidativo enquanto entretenimento para quem enxerga de fora porque ele carece de “brilho”, de atenção imagética suficiente para fazer a pessoa ficar ali mesmo que não tenha completa noção do que está acontecendo.
Para fins de transmissão, seria preferível dar mais destaque aos eventos na mesa ao invés de forçar o foco no exercício mental com o público de Magic em tentar “prever” jogadas dos competidores durante o torneio. Sim, ele funciona para o público de Magic — apesar de ser meio entediante porque estamos falando dos melhores jogadores do mundo e nós, meros mortais, idealmente não tomaremos as jogadas mais assertivas —, mas não funciona para mais ninguém.
Além dos problemas durante a transmissão, a cobertura também deixou a desejar em outros aspectos. Nas mídias sociais, houve pouca ou nenhuma repercussão das páginas de Magic: The Gathering sobre o torneio — no momento em que escrevo esse artigo, o Instagram oficial do jogo ainda não anunciou Seth Manfield como Campeão Mundial, talvez como parte da gestão de crise envolvendo as controvérsias do Top 8 — e não houve nenhum tipo de ação pré-evento que gerasse hype e engajamento no público-alvo.
No máximo, foi publicado um único artigo no site oficial comentando dos “jogadores para ficar de olho”. Não é o suficiente, pelo contrário: o “pré-jogo” de um Campeonato Mundial pode ter muito além do que só falar dos jogadores, como fazer uma transmissão oficial no dia anterior ou horas antes do evento falando sobre Metagame, decks (com listas agregadas ou apenas cards-chave para manter a discrição das decklists até as rodadas de Standard), jogadores de destaque, e até entrevistas para falar das expectativas do torneio — basta querer tratar o Mundial de Magic como, bom, o Mundial do melhor card game.
Por consequência, muitos não se importaram que o evento estava ocorrendo. No primeiro dia, frequentei uma loja local que realiza torneios de Standard toda noite de sexta-feira. Na tela da televisão, passava um campeonato de Counter Strike: Global Offensive, e ao comentar sobre estar ocorrendo as rodadas de Standard naquele exato momento, este mesmo público, jogadores de Standard, não deu relevância suficiente para querer trocar a transmissão de outro jogo pelo torneio mais importante do TCG que eles estavam jogando.
Este exemplo, enquanto pequeno e até anedótico, demonstra o quão baixo o valor do Magic competitivo está hoje para a audiência. Conversando com outras pessoas de regiões distintas, percebi que muitos também nem sequer sabiam que o Mundial estava acontecendo, e as discussões em suas lojas estavam muito mais voltadas para os potenciais spoilers de Marvel Super Heroes que provavelmente aconteceriam na terça-feira seguinte do que no maior torneio do ano.
Talvez o Magic competitivo não tenha mais valor. Os únicos que se importam com ele são quem ainda tenta viver o sonho de jogar um Pro Tour, e para o resto, ele é apenas mais uma camada do jogo menor que, por falta de investimento em uma cobertura decente e em construir meios de comunicação que promova devidamente seus grandes torneios, a própria Wizards of the Coast parece negligenciar e não dar a devida importância.
Fui uma das pessoas que cresceu em um mundo onde o Magic competitivo era a principal porta, em que assistir ao Pro Tour não apenas mostrava os destaques das novas expansões no formato elencado como também servia de inspiração: você queria estar ali, diante das câmeras, com pessoas torcendo por você enquanto competia com os gigantes do jogo pela glória de chegar ao Day 2 e, quem sabe, ao Top 8.
“Play the game, see the world” era a palavra-chave que inspirava muitos a tentarem o seu melhor para masterizar seus baralhos e conhecimento do Metagame e do jogo, e esse foi um fruto duradouro de uma estratégia pensada ainda nos anos 90 que visou tentar assemelhar a perspectiva do jogador profissional de Magic com a de um jogador profissional de qualquer esporte — as pessoas olhariam para elas na tela da televisão ou dos seus computadores e pensariam, “Eu quero ser como este cara!”Agora, parece que este mundo está murchando, e a inspiração de competir em Magic: The Gathering está sendo minimizada tanto pelo público que não parece mais dar a devida importância aos grandes eventos para além de alimentar discursos raivosos em mídias sociais sobre qualquer assunto, quanto pela própria Wizards of the Coast que não dedica recursos o suficiente para tornar do Mundial o espetáculo e a celebração que ele deveria ser — uma pena, visto que o jogo continua quebrando recorde de vendas ano após ano, e o topo da cadeia dos jogadores merece o devido retorno não apenas em premiações decentes como também em prestigiar e ser prestigiado no maior evento do melhor card game.
O curioso é que Magic investiu pesado em espetáculo no passado recente, mas não obteve o retorno esperado por circunstâncias que não poderia prever. Quando o jogo estava tentando — e fracassou — em adentrar o universo dos eSports, a cobertura dos grandes eventos daquela época tinha um jogo de câmeras, iluminação e dinâmica muito mais vívida do que a que temos hoje, mesmo que tenhamos críticas em relação à execução do projeto através do Magic Arena quando este, durante a pandemia, se provou incapaz de proporcionar o mínimo de qualidade até pela ausência de um modo espectador, inexistente até hoje.

Fomos da cena acima no Mundial de 2019 para seja lá o que foi a celebração do Mundial de 2025, onde uma meia dúzia de rostos conhecidos batem palmas enquanto o campeão fica de frente para a câmera sem esboçar qualquer reação e o troféu não parece nem sequer feito para ser segurado, com um cenário que é o mesmo utilizado para todos os Pro Tours e uma iluminação que faz parecer que a rodada final foi jogada em um salão de eventos prestes a fechar.

Magic merece mais que isso. Com seu crescimento nos últimos anos e tentativas de invadir o cenário mainstream com parcerias de Universes Beyond, era de se esperar que alguma parte de investimento fosse aplicada em fazer o Mundial parecer um grande evento para o público de fora, até para torná-lo mais visualmente atrativo para esses espectadores.


Se o compararmos com o Mundial da maioria dos demais card games, a diferença é notável, e a Wizards/Hasbro deveria mirar em proporcionar pelo menos um terço do que Pokémon, Yu-Gi-Oh!, e outros jogos grandes oferecem, ao invés de se acostumar a fazer mais do mesmo e se nivelar para baixo.
Mas parece que a prioridade está em outro lugar.

Afinal, para quê pensar em um pós-cobertura do Mundial, uma entrevista com o campeão sobre o torneio, quando pode-se somente pular direto para mais prévias antes que o ano acabe? E de uma expansão cujo lançamento está previsto apenas para junho de 2026?
A reclamação sobre os spoilers terem sido antecipados demais pode parecer redundante, mas soa como um lembrete de onde estão as prioridades de Magic: The Gathering hoje — a de um produto a ser vendido acima de qualquer outro valor intrínseco que o jogo possui, inclusive do cenário competitivo e da construção da percepção do jogo como algo que vale a pena se dedicar para estar entre os grandes nomes dele.
Repito ostensivamente que Magic é um produto a ser vendido, porque ele é. Todo produto de entretenimento é feito para gerar receita e todo investimento em uma nova expansão do card game é feito para gerar lucro, mas a essa altura, me parece que essa é a única coisa que restou de importante para a Wizards of the Coast/Hasbro no Magic.
Nos últimos anos, vimos um crescimento considerável do nicho de card game, sendo iniciado na pandemia e ocasionado principalmente pela sensação artificial de aumento de poder de compra causado pelos auxílios financeiros dados durante a pandemia. Foi nesta época que o boom do colecionismo de Pokémon TCG ocorreu, enquanto movimentos em torno do investimento “colecionável” já aconteciam anos antes, com a Lista Reservada sofrendo spikes ainda em 2018.
Desde então, o cenário explodiu e agora temos diferentes tipos de card games para todos os gostos, inclusive, com muita controvérsia em torno de alguns deles como Riftbound, cuja demanda foi consideravelmente maior que a oferta e trouxe uma dúzia de problemas envolvendo escassez, scalping, entre outros.
Hoje, a percepção — e uma cultura engessada no público de card games desde que o gênero existe, basta ver o motivo da Lista Reservada existir —, é de que o mercado deste nicho está tratando um hobby como investimento, uma espécie de NFTs de papelão colorido colacionável na expectativa de que, daqui a cinco ou dez anos, estes sejam capazes de lhe render um carro ou até uma casa baseado em um valor colecionável, e todo card game, sem exceção, embarcou nesta onda oferecendo todo tipo de “variante premium” dos seus cards para o público comprar boxes em massa e movimentar a máquina.
Magic não é exceção, e este se adaptou exemplarmente do ponto de vista mercadológico às demandas de um “novo público”: você anuncia Marvel Super Heroes seis meses antes do lançamento para gerar engajamento, hype, mas também para anunciar “Lembrem-se de que, ano que vem, tem isso aqui para vocês investirem”.
E se este é o rumo que o mercado tem tomado, então as prioridades do público também mudam e o jogo competitivo deixa de importar, pois ele já não é mais o aspecto motivador do produto — o colecionável e o investimento tomam esse lugar —, e se este não funciona mais como ferramenta para sedimentar o consumo, então os motivos para investir neles, do ponto de vista de uma empresa mais preocupada com o lucro do que com a cultura do seu próprio jogo, só tendem a diminuir.
Há dez anos, quando assisti à transmissão do Mundial de Magic de 2015, havia um leve sentimento de orgulho em ver como o jogo que eu acompanhava estava, aos poucos, se profissionalizando e ganhando requintes de um “esporte competitivo”. Agora, não apenas parece que a qualidade de transmissão de Magic parou no tempo e não oferece nada de novo desde o fracasso da Pro League, como também passa o sentimento de que, independentemente de fazer recorde de vendas atrás de outro, a Wizards of the Coast não considera necessário investir no topo da sua escala competitiva e nem transformar seus torneios em grandes espetáculos.
Pode parecer uma perda apenas para uma pequena parcela do público consumidor do jogo, mas, na verdade, todo o público de Magic e a própria marca do jogo perdem quando a empresa responsável por ele não se dá ao trabalho de valorizar seu próprio Campeonato Mundial.
E este ano, ao fim do evento, é exatamente isso que o Campeonato Mundial 31 transmite: a dele não significar nada. A de Magic, enquanto jogo competitivo, já não ter mais importância.












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