A maior força de Magic: The Gathering está na sua comunidade. O card game da Wizards of the Coast não teria vivido quase 33 anos e chegado ao ápice histórico do seu sucesso em 2025/2026 se a comunidade não abraçasse o jogo, independentemente do quanto o público concorda ou discorda das decisões da Wizards of the Coast.Essas decisões, nos últimos anos, tiveram como palco de discussão a série Universes Beyond, o projeto de crossovers em que personagens e mundos icônicos de outra marca externa são representados em cards de Magic, como material promocional limitado e, mais recentemente, com edições completas que, além de terem o leque completo de produtos entre decks de Commander e JumpStart, também são válidas no Standard.A comunidade é vocal a respeito de Universes Beyond, e se a Wizards of the Coast/Hasbro aponta que o maior consumidor desses produtos é o próprio jogador de Magic, diversos jogadores afirmam que inserir outros mundos no jogo de cartas foi uma das piores decisões da empresa — apesar do crescimento de Magic na cultura mainstream nos últimos anos.Tal ascensão é alvo de críticas: a Hasbro, segundo críticos, estaria sugando o máximo da Wizards/Magic no curto prazo, sem pensar na preservação da saúde do jogo e da marca no longo prazo. Magic estaria "morrendo" porque está deixando de ser aquilo que fora percebido durante 30 anos, apesar dos recordes de vendas e do status de colecionável e "ativo financeiro" que card games receberam na era pós-pandemia.Movimentos "anti-Universes Beyond" existem, e mesmo não sendo amplamente populares, criam repercussão e engajamento. Existe sim um grupo aguerrido disposto a qualquer coisa para não ter de lidar com o Homem-Aranha ou Cloud Strife na sua mesa de jogo, mas a tendência da maioria, especialmente nas redes, é tratar esse comportamento como infantilizado ou um ato de gatekeeping.Por isso, tratar o Planar Standard como um "formato para fugir de Universes Beyond", a despeito dos próprios criadores do formato afirmarem serem indiferentes à série, é um desserviço com a verdadeira mensagem que deveria ser ouvida desta comunidade.Caso você esteja nas redes, especialmente no Reddit, é provável que já tenha ouvido falar de Planar Standard. Desde o início de 2026, sua comunidade tem sido ativa com postagens em subreddits de Magic para promover um formato aos moldes do Type 2, antigo nome do Standard: um formato gerido pela comunidade, onde apenas edições in-universe de Magic são válidas, com uma rotação de dois anos vigentes; todas as expansões lançadas entre 2025 e 2026 são permitidas, com a rotação ocorrendo no lançamento do primeiro set de 2027. A única carta banida é Cori-Steel Cutter.Com a janela de lançamentos prevista de Magic, isso significa que Planar Standard pode ter, no máximo, sete expansões, com três a cada ano e Foundations funcionando como o "core set". Era quase o mesmo padrão utilizado pela Wizards of the Coast para o Standard antes de a Wizards of the Coast subir a quantidade de lançamentos anuais no Standard de quatro para cinco a partir de 2023, e de cinco para seis com a inserção de Universes Beyond em 2025, e de seis para sete por questões contratuais em 2026.Apesar de excluir Universes Beyond e, consequentemente, poder ser percebido como um movimento "anti-UB" e popular neste público, a decisão foi uma escolha pragmática da organização do formato para reduzir a quantidade de expansões que um jogador precisa acompanhar durante o ano para jogar Standard. Uma demanda válida para a saúde financeira de uma parcela considerável de jogadores de Magic.MaRo e outros podem dizer o quanto quiserem que você não precisa acompanhar todos os lançamentos, mas se você joga Standard, precisa estar ciente de que Marvel Super Heroes acabou de sair, e faltam sete semanas para o lançamento oficial de The Hobbit, em 14 de agosto. Reality Fracture sai 48 dias depois, em 2 de outubro, e Star Trek sai em 13 de novembro.Em comparação, a distância entre Secrets of Strixhaven e Reality Fracture é de 161 dias. Mais de cinco meses para aproveitar tudo o que uma coleção tem a oferecer e ter tempo para planejamento financeiro. A demanda que escutamos de jogadores de Standard durante os dois anos é o quão desagradável está sendo acompanhar uma nova coleção em uma média de 50 dias. Esse público demanda equilíbrio, e o Planar Standard busca oferecê-lo.Para os padrões de consumo do público de card games, cinco meses é muito tempo, e a "falta de novidades" pode ser vista como algo ruim em Magic. Isso ocorre porque, a cada set, a expectativa é que ele traga mudanças substanciais ao Metagame enquanto a quantidade de cartas válidas no Standard, somada a mais expansões saindo ao ano, faz com que apenas os cards mais fortes consigam ter relevância competitiva.Menos cartas no formato e menos lançamentos oferecem a possibilidade de estratégias populares como Goblins e cartas promissoras como Frenzied Baloth encontrarem espaço e se tornarem staples. Há tempo para jogadores e criadores de conteúdo explorarem novas ideias sem a pressão de a próxima expansão que sai daqui a quinze dias ter um Vivi Ornitier e invalidar o Metagame inteiro.Apesar de nascer como um formato que excluiu Universes Beyond, a demanda por trás do Planar Standard se origina da necessidade de ter tempo para respirar, repensar, aproveitar o deck e jogar torneios sem se preocupar com os próximos 45 dias. Trata-se da manifestação nas mesas do pedido para que a Wizards of the Coast dê tempo para que jogadores possam aproveitar seus produtos.Sabemos que Universes Beyond traz cards definidores de Metagame, de Vivi Ornitier quebrando Agatha's Soul Cauldron até Badgermole Cub forçando o formato a se adaptar com remoções baratas ou sofrer as consequências, e Gran-Gran estabelecendo um arquétipo junto ao pacote de Lessons.Se o formato cresce a níveis comparáveis aos do Premodern, com torneios de três dígitos de jogadores, ele pode — caso seus organizadores se comprometam a manter a integridade do Metagame — servir como a antítese para o modelo do Standard competitivo, servindo como palco para avaliar o quanto menos lançamentos no formato culminam em ambientes saudáveis, com menos banimentos.Há um desencontro de expectativas tanto com o modelo de negócios de Magic: The Gathering quanto com a demanda do público consumidor. Talvez seja impossível conciliar as duas coisas, mas se algo ficou claro com o Premodern antes do Planar Standard, é que uma parcela da comunidade anseia por uma categoria de estabilidade financeira e mental, e o modelo de negócios de Magic, principalmente para o Standard, não corresponde a essa demanda.Muitos jogadores expressam a fadiga de Magic nas redes, mas apenas os jogadores de Standard são obrigados a acompanhar todo produto para ficar a par do ambiente competitivo. Este é o pedido de uma parcela deles para sentir menos burnout com o jogo. Se o formato crescer, pode existir um olhar sobre essa parcela do público. Do contrário, a comunidade encontrou uma maneira de não ser guiada sem pensar pelo trem do hype.
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