Magic: the Gathering

Opinião

Apagão de Dados do Magic Online é um Ataque ao Jogo Competitivo

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A Wizards decidiu reduzir a publicação de decklists para "preservar a descoberta". Na prática, está minando a transparência e prejudicando tanto jogadores competitivos quanto a integridade de Magic: The Gathering

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revisado por Tabata Marques

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Em 16 de fevereiro, a equipe do Magic Online anunciou uma mudança na estrutura de compartilhamento de decklists dos Challenges e demais eventos competitivos da plataforma. Torneios com menos de 64 jogadores terão listas do Top 8 compartilhadas. Torneios com até 128 jogadores terão listas do Top 16. Apenas torneios com mais de 128 jogadores terão listas do Top 32. Até poucos dias atrás, o Top 32 era compartilhado independentemente do tamanho do evento.

Ryan Spain, da equipe do MTGO, explicou a decisão no Discord. Segundo ele, a "curadoria" (Wizards of the Coast) enxerga Magic como um quebra-cabeças que se renova sempre que uma nova expansão sai. Eles tentam manter esse quebra-cabeças saudável e divertido de várias maneiras — e dados de torneios são uma dessas maneiras.

O objetivo da mudança é garantir decklists suficientes para o público identificar um Metagame, mas não tantas listas ao ponto de criar soluções baseadas em dados e identificação de padrões feitos por sites dedicados a Magic. Para eles, a resolução ideal do quebra-cabeças precisa vir de playtesting — não de substituir a descoberta com estatísticas.

Em resumo: publicarão menos decklists para diminuir a velocidade com que o Metagame se resolve.

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Não é a primeira vez. Em 2017, com o lançamento de Hour of Devastation, Magic reduziu a quantidade de listas diárias postadas do Magic Online de dez para cinco. A empresa criou uma curadoria para que os decks tivessem diferenças de mais de cinco cards entre um e outro, supostamente para evitar que o Metagame fosse "resolvido rapidamente". A mudança foi feita após uma série de banimentos no formato Standard, causada por diversos erros sucessivos de design — anomalia para aquela época.

A decisão foi recebida com críticas, mas com menos barulho do que o esperado nas redes sociais. De alguma maneira, todos concordam que a mudança prejudica o Magic competitivo. Mas cada um aponta motivos diferentes e cria suas próprias teorias sobre os motivos. Isso enfraquece o argumento de que essa é uma péssima decisão. E ela é.

Se Magic fosse um Estado, jogadores seriam os cidadãos e a Wizards seria o governo. E ele está dizendo, neste caso, que não quer divulgar dados fundamentais de interesse público porque acredita ser "melhor" para os cidadãos se eles não souberem. Está disposto a fazer isso criando um apagão de dados e minando a transparência e confiabilidade do que ainda se dispõe a divulgar.

Liberdade de informação é essencial para qualquer grupo social, de democracias até comunidades de jogadores de card game. É fundamental que o acesso à informação seja democrático, sendo direito de jogadores, portais jornalísticos e criadores de conteúdo buscar e receber informações de interesse público com precisão e transparência. Também é fundamental que possam apurar, filtrar e cobrar esses dados.

A mensagem da Wizards com esta mudança vai no sentido contrário. Eles acreditam que o jogo fica mais interessante quando a informação não é completamente divulgada. Que a "descoberta" é parte do processo para os jogadores. Está longe de ser a realidade prática e só cria mais problemas do que soluções.

Os Portões da Especulação Desenfreada

Redes sociais não têm filtro e a informação circula o dia todo. A mente coletiva nos Discords e nas mídias sociais fará o trabalho de compilar dados que a Wizards não parece disposta a compartilhar.

Então, quem perde? O público consumidor. Principalmente do Magic de mesa.

A redução de dados oficiais torna a especulação mais volátil e suscetível à manipulação artificial. Sem tantas informações sobre a situação de Metagame por meios oficiais, a quantidade de especulação e picos induzidos no mercado baseados em listas aleatórias se torna mais frequente. O preço de cards individuais tende a sofrer aumentos maiores em staples definidores sempre que um Top 8 aparecer com uma carta rara ou mítica em mais de 50% das listas.

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Se Badgermole Cub e Quantum Riddler já são notoriamente caros para cards do Standard com os dados de Top 32, imagine se tivessem saído e feito os resultados que fizeram com apenas o Top 8 sendo divulgado?

O Empobrecimento do Debate sobre o Metagame

Até o Pro Tour Lorwyn Eclipsed, parcela significativa da comunidade considerava Badgermole Cub forte demais para o Standard. Hoje, jogadores ainda reclamam consistentemente de Izzet ter sido super-representado por diferentes arquétipos no último ano.

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Sem dados para comprovar se determinadas estratégias são de fato quebradas, ou se algum card está aparecendo com frequência excessiva, o debate sobre banimentos será mais cacofônico, dissonante e menos baseado em informações concretas e bem fundamentadas com fácil acesso e pouca manipulação anedótica. Ficará ainda mais difícil contra-argumentar que um formato está saudável apesar da percepção pública. Da mesma forma, será desafiador comprovar com números que um formato está quebrado e banimentos são necessários.

A teoria da porcentagem pode ser usada com muito mais frequência daqui a seis meses, quando uma estratégia bater 40% ou mais de representação com os dados do Magic Online, porque apenas o Top 8 estará sendo avaliado. Ou pior: o argumento de que a Wizards está "ocultando dados" também pode virar ferramenta de gaslighting para dizer que não há nada de errado com um cenário competitivo claramente pouco saudável.

Da mesma maneira, a narrativa fica quase inteiramente controlada por quem decide o que é revelado. A própria Wizards tem liberdade para usar argumentos vagos e enigmáticos para dizer que o problema não é o jogo ou a saúde de um formato, mas que os próprios jogadores "ainda não encontraram as respostas ideais para o problema" — fazendo com que banimentos não precisem ser tão frequentes.

A Morte do Conteúdo Competitivo

O filtro para definir o que é competitivo, ao invés de ampliar, fica ainda mais restrito. O discurso agora será bem mais anedótico e com muito mais nuances regionais de torneios de papel do que em qualquer outro momento desde o nascimento dos fóruns de internet.

Grinders tendem a optar pelas escolhas confiáveis. Com menos dados, há menos motivos para tentar inovações. Consequentemente, menos escolhas criativas com comprovação competitiva surgirão. Isso significa que o "conteúdo para Magic competitivo" toma um golpe gigante que reduz a qualidade da produção em geral.

Deck Guides perdem base de informação sobre pluralidade e probabilidade de determinadas partidas. Techs de sideboard ou maindeck terão menos destaque porque, se um jogador fizer uma lista excelente mas não chegar ao Top 8, ele depende exclusivamente de compartilhamento nas redes sociais — e das pessoas confiarem no resultado que afirma ter conseguido — para mostrar uma nova estratégia ou plano de jogo.

Leituras de Metagame deixam de existir, tornam-se não confiáveis ou são consideravelmente dificultadas. Sem dados suficientes, fica impossível fazer análise de saúde, potenciais banimentos, representação de determinadas estratégias no escopo maior, tier lists e qualquer outra cobertura visando esclarecer o ambiente competitivo para a comunidade.

A diversidade de decks em todos os formatos também sofre. Afinal, a maioria das "boas ideias" começa em algum lugar entre o 5-0 de uma Liga e um Top 16 em um torneio competitivo. Nunca descobriríamos que Izzet Looting ainda seria forte mesmo sem Vivi Ornitier se não fossem jogadores experimentando com Izzet Cauldron sem o combo e fazendo resultados no Top 16 dos Challenges.

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Sem diversidade de listas para explorar, o Metagame dos formatos — principalmente os dependentes do Magic Online — parecerá parado com mais frequência e, consequentemente, tedioso.

Vintage e Pioneer se sustentam, do ponto de vista competitivo, na plataforma, pois são quase inexistentes no jogo de papel hoje. Legacy, que possui torneios regionais fortes, tem no Magic Online sua maior agregação de leitura do formato e coleta de dados globalizados sobre a saúde competitiva. O Pauper, embora popular em torneios de mesa, nasceu do Magic Online e tem uma cultura gigantesca de grinders e criadores de conteúdo que terão menos motivos para inovar. No Modern, basta uma sequência de Top 8 com duas ou mais cópias do mesmo deck para acusarmos estratégias de serem opressoras quando, na verdade, elas não representam a ampla diversidade que o formato possui.

O Elefante na Sala

Reduzir postagem de resultados cria confusão na ausência de dados concretos. Fica mais fácil apontar que um problema não existe, que é "percepção pública" e não dados reais. Ocultar informação e filtrar o que é divulgado prejudica o trabalho de identificar problemas no ambiente competitivo. Com sete expansões no ano, fica ainda mais difícil. Afinal, formatos como Standard podem mudar rapidamente de um set para outro — talvez esse seja o objetivo.

O problema existe e não vai embora. Solucionar o Metagame com facilidade e ele ser "ruim" com pouca variação é um problema a ser resolvido no game design e remediado com intervenções pontuais e banimentos. Precisa ser solucionado com mudanças estruturais na gestão que não passam por ocultar informação e alterar fórmulas de divulgação de dados, mas por identificar soluções assertivas dentro do game design.

Mais uma vez, a Wizards está usando os dados de torneio e a cobertura de Metagame por terceiros como bode expiatório para seus próprios erros e incapacidade de gerir bem formatos quando a janela de lançamentos — especialmente para o Standard — nunca foi tão agressiva.

Não funcionou nas outras vezes em que a empresa tentou a mesma coisa. O Standard continua tendo problemas quase uma década após a mudança nos resultados das Ligas, e quase três anos após a mudança de postar somente os resultados do Top 32 dos Challenges.

Afinal, o verdadeiro problema não está no quanto os dados facilitam resolver o quebra-cabeça do Metagame. Ele vem de dentro da Wizards of the Coast, em algum lugar entre decisões empresariais gananciosas e o mal planejamento de design para o ambiente competitivo.

Concluindo

Quando aqueles que deveriam manter transparência optam por cortar a informação que deveria ser pública, cabe à imprensa — no caso de Magic, aos criadores de conteúdo também — se manifestar, criticar e se unir para apurar e divulgar os dados que não querem revelar. Se a decisão não for revertida, talvez esse seja o melhor curso de ação.

Pelo bem da saúde e credibilidade do Magic competitivo.

Obrigado pela leitura!