Magic: the Gathering

Opinião

Harry Potter demonstra onde ficam os limites de Universes Beyond

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A reação da comunidade ao anúncio da Hasbro mostra que nem toda parceria é bem-vinda

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revisado por Tabata Marques

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Em 10 de fevereiro, a Hasbro anunciou, através do relatório para acionistas, parcerias com quatro marcas: Harry Potter, K-Pop Demon Hunters, Street Fighter e Voltron. Exceto por K-Pop Demon Hunters, nenhuma dessas parcerias envolve diretamente a Wizards of the Coast, responsável por Magic: The Gathering e Dungeons & Dragons.

Serão produtos para o setor de brinquedos da Hasbro, feitos visando promover a nova série da HBO de Harry Potter e o novo filme live action de Street Fighter. Faz sentido — é o core business da empresa há décadas.

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Só que o anúncio tinha uma dose de entrelinhas e dubiedade. Harry Potter, especificamente, menciona "role play e colecionáveis". Dungeons & Dragons é role play. Magic: The Gathering são colecionáveis. A porta ficou aberta. Proposital ou não, ficou.

A comunidade de Magic percebeu, discutiu e reagiu mal. J.K. Rowling, autora dos livros de Harry Potter, tem um longo histórico de transfobia e ativismo recorrente contra direitos de pessoas trans com posicionamento público, reiterado e, por vezes, agressivo.

Do outro lado, existe um público de Magic nas mídias sociais, muito vocal sobre o público LGBTQIA+ e inclusão como uma das bandeiras fundamentais do card game. No início de fevereiro, o Tolarian Community College promoveu uma campanha que levantou 600 mil dólares para redes de apoio trans.

A luta em Magic também não é recente. Em 2019, Autumn Burchett jogou um Mythic Championship com terrenos básicos com a inscrição "No Terf on Gruul Turf" e outras mensagens contra transfobia. Os terrenos eram ilustrados por Terese Nielsen, artista que trabalhou 25 anos ilustrando cards de Magic e apresentou, gradualmente, opiniões mais radicais sobre pessoas transsexuais. A Wizards cortou relações com Nielsen em 2020, após a ilustradora apoiar — inclusive com doações — causas ligadas a movimentos de teorias conspiratórias de extrema-direita.

A Wizards respondeu rápido ao anúncio da Hasbro. Em poucas horas, emitiu nota dizendo que Magic já tem uma escola de magia — Strixhaven — e não tem planos de visitar outras escolas. A nota pode não ter sido tão enfática quanto parte da militância desejava, mas o recado foi claro: Magic não terá parceria com Harry Potter, pelo menos não agora. Que bom que não.

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Mas vamos olhar para o que o anúncio revelou, não apenas para o dito: afinal, existe a possibilidade? Sim. É ingênuo pensar o contrário.

A Wizards of the Coast é subsidiária da Hasbro. É uma empresa. Harry Potter, apesar de todas as controvérsias envolvendo Rowling, é uma marca literária e audiovisual poderosa, atravessa gerações e movimenta fãs há mais de duas décadas. Tem todos os elementos que motivaram parcerias com Universes Beyond até aqui.

Para fins práticos, a Wizards nunca vai dizer "nunca" sobre Harry Potter. Empresas não fazem isso com outras empresas quando existe convergência nos seus eixos de interesse. Afinal, a sociedade muda e seus valores balançam — um Universes Beyond de Harry Potter há quinze anos seria recebido com celebração. Hoje não. Amanhã? Ninguém sabe.

O meio do anúncio também importa. As parcerias foram apresentadas em documento público para acionistas — o lugar perfeito para testar águas. A mensagem foi dúbia ao mencionar "role play e colecionáveis" para Harry Potter com propósito, e abriria a possibilidade de que, em algum momento, isso pudesse incluir a Wizards.

Era necessário medir quanto o público aceitaria essa decisão. Do ponto de vista comercial — e negócios tendem a não ter viés moral — fazia sentido testar: Harry Potter ainda movimenta legiões de fãs. Terá série nova na HBO. Produtos colecionáveis, reapresentações dos filmes, eventos relacionados às obras de Rowling ainda são bem recebidos por muitos fãs. Muitas por nostalgia, por paixão ou boas lembranças de tempos mais simples. Às vezes, há movimento até na oportunidade de se conectar com os filhos por meio de uma obra de literatura que atravessa gerações.

Parte mais ativa dessa discussão nas mídias sociais tende a estabelecer debates com viéses morais sobre o apego dos fãs ao universo de Harry Potter, afirmam ser impossível desvincular o apoio à obra às iniciativas de J.K. Rowling contra pessoas trans. Mas o julgamento serve como escrutínio para uma discussão que envolve mais que isso e demanda reflexão individual.

O quanto cada pessoa estaria disposta a abdicar de paixões de longo prazo com determinados universos, histórias, personagens, memórias importantes da infância e adolescência — o quanto estaria disposta a renunciar ao que tudo aquilo significou — em prol de uma causa, ou pelo direito de outras pessoas de existirem sem sofrerem ataques verbais ou institucionais dos autores ou autoras daquela obra?

A resposta pode parecer simples, mas não é. Humanos não são coerentes. Podemos defender determinadas causas e propagar ódio contra outras. Podemos ser inclusivos com certos grupos minoritários e agir com desprezo com outros. Ter valores morais individuais ou coletivos que não conseguimos sempre cumprir utilizando a mesma régua que usaríamos para outros assuntos — somos massas de contradições. Nossos valores tendem a não ser tão universais quando mexem em coisas que estão intimamente próximas de nós, ou tão distantes ao ponto de não enxergarmos.

No caso da comunidade de Magic, entretanto, a resposta foi enfática: não queremos.

Imagem: Tolarian Community College
Imagem: Tolarian Community College

Como empresa, a Wizards gosta de dinheiro. Segundo Mark Rosewater, o maior consumidor de Universes Beyond não é o fã externo — é o público de Magic. Em tese, Harry Potter poderia ter volume de vendas elevado para Magic: The Gathering. Talvez até ultrapassasse um dos três sets mais vendidos da história.

Mas viria com um custo muito alto: a reputação perante grupos que cresceram na comunidade nos últimos anos. Pessoas para as quais a Wizards promoveu e prometeu que "Magic é para todos". Grupos que se sentiriam pessoalmente atacados pela parceria com uma marca cuja autora promove transfobia.

O catálogo de Magic não precisa ter, em seu leque de parcerias, uma marca que não só se tornou excludente para determinado público, como também foi transformada em ferramenta financeira para políticas e movimentos que impulsionam a exclusão do direito dessas pessoas de existirem e viverem com dignidade.

Se existiam dúvidas de até onde Magic poderia ir com as parcerias da série Universes Beyond, e até onde a comunidade estaria disposta a aceitar as colaborações de bom grado, a resposta foi dada — até Harry Potter.